Coquetéis e camarões

Comer é uma atividade social, portanto, cheia de códigos. Mas, ao longo dos anos, percebi que saber onde deixar os cotovelos ou como usar os diferentes talheres não basta. É preciso ter uma estratégia de sobrevivência.

Aprendi bem cedo que uma delas é nunca dizer que está com fome antes de saber o que será servido, ou mesmo antes de saber dos dotes culinários da cozinheira. Se lhe perguntarem se já comeu, diga que beliscou alguma coisa antes de sair de casa. É melhor fazer um elogio silencioso ao anfitrião, comendo além da conta, a ofendê-lo por, mesmo com fome, não conseguir por para dentro o que ele colocou no seu prato.

Assim como o esfomeado, listei abaixo alguns personagens que, para seu próprio bem, você não quer ser em uma mesa:

O beberrão

Beber é um vício. Faz mal para a saúde e ninguém gosta do tio que, mal chegou na festa, já está falando mais alto que todo mundo. Mas não falo desses casos extremos, e sim do bebedor social que não hesita em pedir um chopp quando tem vontade. Aí está o problema. O bebedor social esclarecido é facilmente identificado por bebedores sociais acanhados, que sempre esperam o primeiro pedido para tomar uma decisão. Se você diz que vai beber um suco, eles ficam decepcionados. Começam a lhe encher os picuás com porquês, pedem um refrigerante e, no fim, você sai da mesa sentindo que frustrou as expectativas de alguém.

O cego de amor

É curioso. Quando penso em alguém que gosta de cerveja, penso em um amigo dos meus pais. Ele gosta tanto de Brahma que é capaz de reconhecer as diferentes fontes de água utilizadas para fazê-la. Na prática, porém, é perigoso espalhar que você adora algum tipo de prato, pois as pessoas presumem rapidamente que você não tem critério. Se você ama massas, pode esperar reações indignadas quando recusar educadamente um espaguete à bolonhesa com carne moída de procedência desconhecida.

O refinado

É semelhante ao beberrão em sua sina. Quem gosta de camarão, ostra, cordeiro e outros pratos caros é frequentemente importunado por alguém que também gosta de tudo isso, mas que tem vergonha de pedir sozinho o item que mais pesará na conta.

O fácil de agradar

Costuma-se dizer que quem gosta de tudo, não gosta de nada. Ao menos à mesa, isso não é verdade. Normalmente, quem gosta de tudo é apenas mais flexível. Em se tratando de comida, que muitas vezes serve mais de uma pessoa, isso quer dizer ter sempre que ceder aos cheios de restrições. A longo prazo, mesmo os mais chegados tornam-se incapazes de lembrar ao menos um de seus pratos preferidos.

Bolo e guaraná

Não me lembro como começou a conversa, mas, não faz muito tempo, jogados no sofá, falávamos sobre os clássicos de festa da nossa infância. Ainda que de forma não dita, ao lembrarmos de tudo, acabamos por distinguir duas modalidades de festas de aniversário: as caseiras e aquelas feitas em Buffet.

Quem tem mais de vinte anos deve se lembrar, mesmo aqueles que passavam a hora do recreio sozinhos e angustiados. Naquela época, não tinha dessa de chamar apenas a panelinha. A mãe fazia convites para a sala inteira e pedia para a professora distribuir. Os buffets eram simples. O mais famoso na minha escola ficava perto de casa, e suas maiores atrações eram a música e o carrinho de algodão doce. Talvez tivesse piscina de bolinhas, pula-pula e, às vezes, alguém contratava um palhaço. A diversão mesmo era correr para lá e para cá numa atmosfera lúdica, quase circense. E isso, é claro, envolvia a comida. Além do algodão doce, tinha pipoca e mini cachorro-quente. Eu adorava.

Festas caseiras não eram menos legais e também tinham seus clássicos, como bolo salgado, lanchinhos de patê no pão de fôrma, sanduíche de metro, torta de liquidificador, salgadinhos congelados e bolo de pêssego. A princípio, todo mundo se sentia meio desconfortável na presença dos pais e até dos tios e dos avôs do aniversariante, mas eles nos tratavam muito bem, e é sempre fácil se acostumar com isso.

Hoje em dia as festas parecem sofrer de uma “síndrome de baile debutante”, que é uma coisa que sempre achei cafona, e que ficou ainda pior ao longo dos anos. Apesar dos discursos piegas sobre a garota estampada em fotos enormes pelo salão ser a “estrela maior da noite”, os comentários e as lembranças pouco têm a ver com ela, e estão mais na linha de discutir se essa festa distribuiu mais ou menos bugigangas que a anterior; se serviu alguma receita francesa cujo nome ninguém sabia pronunciar; se foi no buffet mais bafão da cidade; ou se o Caio Castro parecia ou não estar interessado na infeliz que o contratou. E é claro que não.

Buffets infantis agora têm que ter montanha-russa e outros brinquedos em tamanho reduzido. É um plus quando um deles inclui em seu percurso uma passagem pelo lado de fora. A comemoração de adolescentes e adultos é feita em barzinhos descolados ou em baladas hype. Pouco importa se não haverá bolo, docinhos, refrigerante ou qualquer outra coisa para comer e beber, ou que, se houver, cada um pagará sua comanda. Como nas festas de quinze anos, o importante é fazer algo grande que vai dar o que falar. Com sorte vai para o YouTube e para a Caras.

Confesso que eu mesma andei fazendo festinhas no Drosophyla, mas tento me convencer de que isso é aceitável em se tratando de quebrados com amigos que sairiam para comer de todo jeito. Ainda assim, tenho para mim que fino mesmo é reunir os amigos em uma festa intimista. E linda é a minha irmã, que completou 26 aninhos com sanduíches de patê!

Parabéns, bunita! Você não apareceu na Caras, mas foi lembrada aqui no Cabaré. Amo muito você!

Colheres da discórdia

O garçom pergunta: “Aceitam sobremesa?”. E nessa hora, como o pequeno Pip, do clássico infantil Grandes Esperanças, de Charles Dickens, “eu poderia ser um desafortunado tourinho em uma arena espanhola”.

Após pronunciar um entusiasmado sim, sinto que direta ou indiretamente todos na mesa têm algum comentário a fazer. Os mais muquiranas ficam inquietos, remoendo os vinte reais a mais que aquilo representará na conta. As garotas fitness fazem cara de reprovação. Não sei se por meu ato criminoso ou por colocá-las diante de tamanha tentação. E sempre tem alguém que não sei porque cargas d´água diz bem alto enquanto percorre as mãos pela barriga: “Não aguento, estou muito cheio”, e só faz aumentar a recorrente sensação que tenho de ser um saco sem fundo.

Para quem porventura vier a sentar-se à mesa comigo, ficam registrados alguns esclarecimentos.

A primeira coisa que olho em um cardápio quando vou a um novo restaurante é a parte das sobremesas. Dependendo do lugar e das opções, pois já passei da fase de pedir petit gateau em rodízios de japonês e torta de limão congelada em restaurantes de família, já faço minha reserva, tanto financeira quanto de apetite. Em vez de drinks caros, tomo Coca-Cola. Dispenso o couvert e me controlo nas entradas. Sou como o Charlie Brown, da tirinha Peanuts, que em uma sequência na qual alguém lhe diz que comer a sobremesa vai estragar seu almoço, ele responde que acharia muito pior se o almoço lhe estragasse a sobremesa.

Por último, pode apostar que quero morrer quando o garçom ressurge com um prato rodeado por colheres extras, e o muquirana, a garota fitness e o satisfeito não hesitam em agarrá-las “só para experimentar”. Pode ser difícil de acreditar, mas não é gula, tampouco egoísmo. É só que detesto ser o mártir da sobremesa.

Dieta das cifras

Virada de ano é tempo de fazer resoluções e, como de costume, um dos meus planos para 2012 envolve alimentação: quero comer melhor. Não que minha intenção seja consumir muitas fibras, tomar iogurte entre as refeições, chamar frutas secas de sobremesa ou diminuir a quantidade de carne da minha dieta. Não sou uma pessoa que almeja esse tipo de coisa. O máximo que eu poderia almejar com sinceridade seria ser uma pessoa que almeja esse tipo de coisa, porque a verdade é que sou uma boêmia careta e antissocial que tira grande proveito da vida vendo séries da HBO enquanto toma cerveja e come pizza. O que quero é comer cada vez menos ansiedade e cada vez mais coisas que valham cada uma de suas milhares de calorias.

Em 2012, quero só o que vale a pena, como os macarons.

Engana-se quem pensa que fiz as pazes com a balança. Continuo fugindo dela com afinco. O que mudou foi que, apesar das várias dicas não-solicitadas dadas pela turma da academia, ou pela tia que emagreceu recentemente e já se considera nutricionista, em 2011 comi menos doce, bebi menos cerveja e, principalmente por culpa do meu estômago, comi menos frituras. Mas engordei.

Sinto-me como uma moça que participou do programa Você É o Que Você Come, da implacável Gillian McKeith. Preocupada com a silhueta, quando tinha vontade de comer algum alimento calórico, ela tomava café com leite para enganar. O problema é que essas vontades apareciam com tanta frequência que, ao menos na quantidade de calorias, os pingados equivaliam a uma mesa farta de bacon e ovos fritos. Confrontada com as evidências apresentadas por Gillian, em vez ficar enojada, como é de praxe no programa, ela ficou decepcionada: “Se eu soubesse, teria comido bacon e ovos!”

Não é raro eu comer boa quantidade de comida em ritmo acelerado e depois me arrepender, pois, passada a euforia, penso que estava sem sal, ou salgada demais. Os mais velhos dirão que em barriga cheia, goiaba tem bicho, e eles até têm lá sua razão, mas, como quem já se viu forçado a seguir uma dieta por qualquer motivo sabe, às vezes come-se por prazer; outras vezes, é apenas uma questão de sobrevivência, e, nesse caso, é improvável passar da conta a não ser por pura ansiedade. Afinal, em perfeitas condições mentais, quem desperdiça centenas de calorias comendo três barrinhas de cereais industrializadas sabor brigadeiro de uma vez só? É isso que pretendo evitar.

No que diz respeito aos quilos extras, a parte boa é que alguém com as minhas condições financeiras depara-se apenas ocasionalmente com chocolates belgas, queijo brie e outras maravilhas.Com o chocolate, a mudança aconteceu ainda no ano passado. Depois de comer um ovo de páscoa inteiro da Le Vin, a barra de chocolate Milka que fazia a alegria das minhas TPMs deixou de valer a pena, assim como a ideia do sorvete Mega, da Nestlé, fica intolerável depois de um Gianduia, da Diletto.

Picolés da Diletto. Foto: Divulgação

O problema, então, está no conflito de interesses, já que ganhar dinheiro justamente para me acabar nas coisas boas da vida também chegou ao topo da minha lista!

Manobra VIP

Há cinco anos, quando comecei a dirigir, meu pai tentou me tranquilizar: “Não se preocupe, fiz um bom seguro para o caso de você dar o azar de bater numa Mercedes”.

Hoje em dia, como já foi dito a torto e a direito, não é preciso muito azar. A situação está mais para uma variação do “para morrer basta estar vivo”. Para bater em carro importado basta sair na rua. Se seus condutores correm, que perigo! Mas se são muito cuidadosos, empacam o trânsito, com o risco de lhes acertarmos a traseira. Os que estão perto não sabem como agir, mas, na dúvida, mantém a distância que manteriam de um carro velho.

Nos serviços de valet dos restaurantes a regra parece valer.  Na Lanchonete da Cidade a situação foi constrangedora. Ao embicar para entregar o carro no lugar habitual tive que dar ré. Cercada por todos os manobristas do lugar, uma Mercedes se preparava para estacionar ali. Com as mãos, fizeram para mim um gesto de “sai daí”.

No Butcher’s Market foi ainda pior. O estabelecimento cujo hambúrguer foi eleito o melhor da cidade fica em rua estreita e movimentada. Com carros estacionados nos dois lados da rua, é impossível parar na famosa fila dupla para subir ou descer do carro sem causar um rebuliço. Por causa de um modelo importado que tomava o espaço de embarque e desembarque do valet, andamos um bocado para chegar até o carro, o que seria aceitável não fosse aquele um dia de toró e o fato de nenhum manobrista ter nos acompanhado com um guarda-chuva.

Penso que, na melhor das hipóteses, os manobristas – e em especial os empregadores desses manobristas – têm medo de conduzir essas máquinas quentes. Na pior, têm medo de deixá-las nas ruas ermas onde carros comuns costumam passar a noite. De uma forma ou de outra, é antipático. Para quem não tem tratamento VIP fica um certo sentimento de inferioridade em dois momentos importantes da experiência em qualquer lugar: a chegada e a saída.